DISCÍPULOS DO MESTRE SHI ZHENG ZHONG

Tornar-se discípulo do Mestre Shi Zheng Zhong, uma das maiores autoridades do Kung Fu Tradicional

Por Gil Rodrigues: Redator da Revista Folha Peng Lai, Diretor Cultural da Peng Lai Brasil. É professor de Tai Chi Chuan Estilo Chen, discípulo do Mestre Chen Ziqiang. Formado em Comunicação Social – Relações Públicas.

 

A base da escola tradicional de Wuhsu está alicerçada naquilo que Confúcio chama de amor filial. Esse amor se refere ao reconhecimento e gratidão pela vida que recebemos dos nossos pais e ancestrais. Na relação mestre e discípulo, o amor filial também se manifesta. É o discípulo que escolhe o seu mestre. É uma escolha baseada na afinidade, feita pelo coração.

O termo Shīfu pode ser entendido como “Pai no kung fu” e simplesmente como “Pai Mestre”. Duas formas são utilizadas para escrever Shīfu em caracteres chineses: 師傅 e 師父. O caractere 師 significa “qualificado”, enquanto o significado de 傅 é “tutor” e o significado do caractere 父 é “pai”.

Mesmo sendo pronunciado de forma idêntica e possuindo significados semelhantes, os dois termos são distintos e seu uso também é diferente. O termo (師傅shīfu) carrega apenas o significado de “mestre”, e é usado no dia-a-dia, para expressar respeito e reconhecimento das habilidades e experiências de trabalhadores comuns, como motoristas de táxi, mecânicos, chefe de cozinha e outros trabalhadores especializados.

Já o termo (師父shīfu) tem significado duplo de “mestre” e “pai”, e, na convivência marcial, evidencia uma relação mais profunda de professor-aluno.  Sendo assim, ao abordar uma relação de maior profundidade entre você e seu mestre, se usa o termo Shīfu (師父) por se referir especificamente ao “Pai Mestre” de sua arte marcial.

O “Pai Mestre”, ou Shīfu, interfere no modo como o discípulo vê o mundo, permitindo que ele aprenda para a vida e não somente para a sala de aula. É uma relação fundamentada na   coragem e exige lealdade, respeito e  honra.

Há dez anos, tivemos nosso primeiro contato com o mestre Shī Zhèng Zhōng e, desde o primeiro instante, nos colocamos na condição de “discípulos” túdì (徒弟) em mandarim, buscando persistentemente aprender aquilo que o mestre Shī considera como patrimônio da cultura chinesa, o tradicional Kung Fu.

A cada encontro com o mestre, nossa mente, nosso corpo e nosso espírito ganhavam novas dimensões e algo quase místico se manifestava em cada aula. Poder aprender algo tão tradicional e precioso e fazer isso em nosso país, diante da presença do mestre Shī, tinha e tem um valor inestimável, sem contar que era a realização de um grande sonho.

Ao longo desses encontros, eu e meus irmãos, André, Marcio, Basílio e minha irmã Élen, assumimos o papel de disseminar o Kung Fu Tradicional ensinado pelo mestre Shī a inúmeras pessoas. Algumas dessas perseveram e continuam conosco até hoje, outra seguiram o fluxo natural da vida, e hora praticam, hora não.

Dez anos se passaram e, nesse período, visitamos a China e também Taiwan. Lá conhecemos nossos irmãos mais velhos, toda a família Peng Lai e ampliamos nossos vínculos de confiança com o mestre e sua família, o que serviu de estímulo para que cultivássemos em nossos corações o forte desejo de nos tornarmos discípulo do mestre Shī.

Este ano, além de celebrar os dez anos de fundação da Peng Lai Brasil, fomos aceitos como discípulos do mestre Shī Zhèng Zhōng, ou seja, passamos da condição de Xuétú (學徒)   aprendiz, para a condição de “filho” / discípulo túdì (徒弟). Uma grande honra realizar tal feito, mais um sonho conquistado.

Existe um dito popular que diz que “quando estamos prontos, o mestre aparece”, e nesse caso o mestre não só apareceu, não só nos guiou, como exerceu um papel importante no fortalecimento dos nossos vínculos como irmãos e como família.

O discipulado ocorre em um evento formal, uma cerimônia tradicional chamada bàishī (拜師). Nela são feitos os votos de respeito, lealdade, honestidade e confiança. Esses votos são feitos ao mestre e ao legado que ele representa, incluindo aqui aqueles que deram ao mestre todo conhecimento, ou seja, seus antepassados, nossos tios e avós de treino.

Agora somos discípulos e assumimos diante do mestre, como dizem os chineses, sob o céu e a terra, o compromisso de seguir adiante, honrando e respeitando os ensinamentos do nosso Shīfu (師父) Shī Zhèng Zhōng (施正忠), assegurando a transmissão da linhagem Wújí Tángláng Mén (無極螳螂門) para as futuras gerações, até o último sopro de vida.